Como amar um estranho

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Como se monta um relacionamento?

Normalmente seguimos alguns passos que transformam o desconhecido em amante.

Primeiro nos interessamos,  observamos, conhecemos, sentimos o outro a distância. Depois conversamos (em alguns lugares não), nos aproximamos, temos contato, acontece o beijo,  sentimos o outro, compartilhamos experiências, percebemos como a pessoa é, se gostamos da maneira dela de agir no mundo.  Se aprovarmos,  continuamos a construir a intimidade, até chegarmos ao ponto de dormir abraçado, tomar banho junto, comer, dividir o mesmo teto, tudo.

Mas e se começamos ao contrário?  E se começarmos uma relação direto na intimidade, no dividir o mesmo teto, comer e dormir abraçado. Será que dá certo?

Como podemos nos abrir com uma pessoa que não conhecemos, uma pessoa que não sei se tem hábitos que me agradam ou não, que não sei se é timido, extrovertido, amigo, calmo ou alegre?

Como ser íntimo de alguém que não sei catalogar em características que uso para definir as pessoas, alguém que não tenho nada em comum. Porque tão pouco sei o que ele pensa, sente ou gosta.

Será que é necessário “saber” o outro pra nos abrirmos? Para nos entregarmos do jeitinho que somos? Ou será que este saber impede justamente isso, a entrega, o envolvimento irrestrito?

Quando você não conhece o outro, não o define como isso ou aquilo, ele pode ser qualquer coisa. Simplesmente qualquer coisa. Ele pode ser leve e dançante, alegre e feliz, cansado e triste, nervoso e grosso, amante e amado, carinhoso e acolhedor, tudo a cada momento, a cada segundo. Justamente porque você não sabe o que ele é, você não espera nada. E nem se assusta, você não se surpreende com os padrões do outro, mas pode se alegrar a cada momento com atitudes que você não espera.

Sua mente até pode querer se prender a suposições, mas no fundo você sabe que não o conhece. Esta idéia de conhecer o outro que nos limita, que impede o desenvolvimento dos dois, e de todos em qualquer relação. E se você não sabe nada dele, você também não sabe nada de você ali. Afinal, você nao sabe do que ele gosta.

Neste ponto você também é livre, totalmente livre. Pois não existem regras, aliás, você não as conhece. Então só pode se guiar em si mesma. Em suas vontades, nos seus próprios limites. Ele pode amar e odiar tudo a qualquer momento, qualquer coisa que você faz é arriscado. Pode agradar muito ou não. Então como se guiar? Não tem jeito. Não tem como saber, não tem como acertar, o lance é jogar, se jogar.

Se eu não me defini,  eu posso também ser mais do que já fui. Quando não tem ninguém pra dizer “Você não é assim”, você se permite ser mais, experimentar mais, viver outras coisas, fugir da trilha que você mesmo se colocou um dia.

Se eu me definio em qualquer relação antes que ela aconteça, eu diminuo meu mundo, restrinjo minha abertura, limito as possibilidades. Mas se eu inicio algo sem saber quem eu sou ali, ou quem o outro é, nós dois podemos SER, simplesmente, sem definição, sem limites, sem amarras.

Quando não se é nada, abrimos um campo inifinito que nos possibilita ser tudo.

Meu Deus, como perdemos oportunidade de sempre ter o melhor amante do nosso lado. Porque a partir do momento que definimos nosso companheiro como um amante medíocre, ele dificilmente será outra coisa. Principalmente se ele se definir assim também.

Quando não somos nada, quando não possuimos nenhum rótulo de comportamento aos olhos do outro podemos ser muito mais coisas. Posso ser a maluca, a certinha, a timida e a folgada, a companheira e a encrenqueira.

E quando não se é nada o que  sobra? Se nem eu nem o outro somos nada, nós podemos criar juntos, criar algo nosso, criar um sentimento, uma situação, uma relação. Nós podemos criar o amor, um amor, literalmente, fazer amor.

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